segunda-feira, 5 de abril de 2010

Um fim de tarde qualquer

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É a primeira vez que saio só em Salvador. Quando saí de casa, direto para morar em outro Estado, o Rio de Janeiro, me vi sozinha em um lugar completamente desconhecido. Não me restava outra saída a não ser sair sozinha. Não tinha nada a perder. Ninguém sabia quem eu era e o máximo que poderia acontecer era as pessoas me acharem ridícula por estar tomando cerveja sozinha e escrevendo igual a uma louca, desenfreada, praticamente psicografando, numa mesa de bar. Foi isso mesmo o que muita gente pensou. Algumas pessoas se aproximaram e tornaram-se amigas. Hoje, os melhores amigos que tenho, apesar da atual distância (moro em Salvador há 1 ano).
Foi numa tarde qualquer, véspera de um feriado qualquer, quando resolvi sair para tomar um chopp, acompanhada do meu velho caderninho de anotações. Antes de descobrir o caderninho de anotações, costumava anotar minhas observações em guardanapos. Até que tive a ideia genial de comprar o caderninho.

O bar fica em frente ao meu prédio. É só atravessar o sinal. Foram um, dois, três chops, em meio a anotações frenéticas. Na mesa da frente, várias pessoas, entre elas, um carinha de bermuda, camiseta e all star branco. Na mesa ao lado, um coroa que, instantes depois, puxou assunto, porque me viu escrevendo.

"Acho o maior barato pessoas que escrevem." Foi assim que ele iniciou o assunto. "Você é jornalista?" "Não." "O que você está escrevendo?" Achei de uma tremenda indiscrição ele ter me perguntado isso. "Nada demais", respondi. "Posso ver?" Como assim posso ver, gente? Claro que não, né? Pensei. Fiquei olhando pra ele, sem saber o que responder e sem querer ser mal-educada, mas ele tava pedindo pra levar uma patada. Onde já se viu vc chegar para uma pessoa que vc nunca viu na vida e perguntar o que ela está escrevendo e, não contente, querer saber o que é? Bom senso ficou em casa, né? "Me desculpe, mas é muito particular." "Entendi... um diário, né? Mas o que você costuma escrever em diários?" Porra! Se é diário, é porque são coisas cotidianas, confidências, segredos, sei lá... coisas particulares. Mas eu, sempre um poço de educação, respondi: "Não, não é um diário."

Besta fui eu de estender a conversa. Devia ter dito que escrevo coisas sobre a minha vida e pedido a conta. Mas, poxa... eu estava só no terceiro chopp e ainda nem tinha escurecido. Além disso, ainda tinha o gatinho de all star, na mesa da frente. "E é o quê, então, já que não é o diário?" "Nada demais, oras. São ideias que me vem à cabeça e eu escrevo. Mas não gosto de mostrar a ninguém. É coisa minha. Só isso."

Abri um sorriso, fechei o caderno e pedi mais um chopp. "Tudo bem, vou te deixar com suas ideias. Me desculpe se fui inconveniente." Até que enfim, um pouco de desconfiômetro. "Não, imagine! Inconveniente nenhum." Abri outro sorriso educado. "Qual o seu nome?" "Renata." "Prazer. Paulo." Mais um sorriso e ele voltou à sua mesa.

Por que os coroas sempre se aproximam de mim? Não podia ser o carinha gatinho da mesa em frente? Eu tenho cara de velha? Já sei... são os óculos.

Enfim. Voltando ao gatinho. Acho que ele tem uma banda de pagode. Não que ele tenha cara de pagodeiro, mas os amigos dele, esses tem.

Ao todo foram seis chopps, com direito a lua cheia, em seguida, na areia da praia.

O contrato de aluguel na Barra venceu e agora estou morando na Pituba. Acho que vou gostar de morar por aqui.

Postado por Renata

5 comentários:

pontorouge disse...

Ô gente sem noção, hein? rs
Também vivo "psicografando" por aqui.

beijo rouge

Dani

pontorouge disse...

Ô gente sem noção, hein?
Eu também costumo "psicografar" por aqui.

beijo rouge

Dani

pontorouge disse...

Ih, eu achei que tinha perdido o comentário e acabei duplicando. Desculpa.

Meninas, tomei a liberdade de fazer um selinho do Clube para colocar lá no Ponto Rouge. Caso tenha algum problema, é só avisar que eu tiro, tá?

beijo rouge

Dani

Daia.BSilva disse...

Acuda... não dá nem pra ficar susse num canto com nossas próprias idéias e só... eu ein. Mas podia ter sido pior! Imaginou se ele arranca o caderno da sua mão? Aí acho que ele levava porrada... hauahauahauahau

Atitude...substantivo feminino. disse...

Ahhhh finalmente alguém com a minha síndrome do caderninho. O meu eu chamo carinhosamente de palmtop analógico. É muito funcional: não consome bateria, eu sempre acho a anotação que procuro, não precisa ligar e o ladrão não quer! Muito útil! Antes eu usava agenda, mas aí me dei conta que não tenho compromissos em 365 dias...o que tenho são devaneios, idéias e listas para notar (adoro listas de pendências). Além disso a agenda pesava muito.
Outra coisa parecida é que vc destravou com o lance de sair sozinha! Isso aí! Eu sou casada mas nem por isso ando ao lado do meu gêmeo univitelino..até porque tem coisas que eu adoro fazer e ele não. Tive experiências maravilhosas de auto conhecimento viajando sozinha..e assim como vc fiz verdadeiros amigos que carrego até hoje!!!
Gostei muito do seu blog! Vamos continuar nos falando! Aguardo sua visitinha no meu! B-jou!!!

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