domingo, 24 de janeiro de 2010

No analista

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Doutor,

Tenho andado muito agitada desde a virada do ano. Estou depositando todas as minhas expectativas neste ano que acabou de chegar. Sinto como se estivesse nascendo aos 29, cheia de sonhos e vontades de fazer e acontecer. Quero mudar tudo, doutor. Quero jogar os últimos 29 anos no lixo, porque sinto que eles não serviram para nada. Este ano quero mudar minha vida e se isso não acontecer, talvez eu prefira nem passar para o próximo ano.

Eu quero ficar rica. Isso mesmo, doutor, rica. Como? O senhor sabe, fazendo o que mais gosto. Só não sei como fazer para fazer o que gosto. O senhor me entende? É, doutor, eu sei que ando desacreditada, mas neste ano eu sei que algo pode acontecer. Eu quero que aconteça, acreditando ou não. Eu preciso que aconteça. Preciso mudar tudo. Quero dinheiro, doutor. Dinheiro! Comprar uma casa, um carro, terminar o curso de francês, começar o de alemão, viajar, sair do meu emprego e viver dos meus sonhos.

Não diga nada, doutor. Não agora, por favor, apenas me ouça.

Ando angustiada sem saber o que fazer para realizar aquele sonho profissional de que falei outro dia, o senhor lembra? Aquele que faria de mim uma mulher rica. Mas quero que isso aconteça antes de eu completar 30 anos, porque desde criança eu sonhava em ficar rica antes dos 30. Pelo menos chegar lá ganhando o equivalente a quinze mil reais por mês. Ta bom, né, doutor. Pra começar está ótimo.

Também quero, neste ano, como disse agorinha mesmo, comprar meu carro, mas preciso tirar minha carteira de habilitação. Se der entrada amanhã, amanhã mesmo já posso começar as aulas teóricas. O dono da auto-escola me garantiu. Mas tem um problema, doutor. Eu combinei com Adélia de fazer aulas de surf na terça, depois de amanhã, pela manhã, exatamente no segundo dia de aula teórica. Seria a minha chance de conhecer seu filho, o Márcio, que é quem vai dar as aulas. Pois é, nem te contei. Márcio tem a minha idade, é músico, professor de surf, já morou um tempo na Europa e, o mais importante, é solteiro, desimpedido. Asseguraram-me de que ele é muito bonito. Eu acho que ia gostar de conhecê-lo. Doutor, ele é tudo o que sonhei, a mãe dele me adora e super aprova nosso namoro, o que é um ótimo começo. Por tudo isso, eu preciso conhecê-lo. Seria a minha grande chance de, finalmente, desencalhar.

Eu queria namorar este ano. Não é minha prioridade, nem estou desesperada para isso. Eu já estou acostumada com a minha solidão. Até aprendi a desfrutar da sua companhia. A solidão, doutor, o senhor sabe disso, é minha companheira fiel, mas às vezes sinto vontade de abandoná-la. E posso fazer isso sem medo nem peso na consciência, porque sei que ela nunca vai me abandonar. É igual a mulher de malandro, sabe? Mas eu queria deixá-la de lado um pouco e arrumar um namorado. O filho de Adélia pode ser uma boa, não acha?

Este ano também estou planejando ir embora daqui. Definitivamente, quero morar no meio do mato. É, doutor, numa casa no campo, como a de Zé Rodrix, para acordar ao som dos pássaros, me inspirar, ler meus livros e ouvir meus discos em paz, apenas com a interferência da natureza. Sem vizinhos nem barulho de carros e comércio. Só eu, minha solidão e a natureza. Tenho procurado casas em Mauá, Itatiaia, Volta Redonda, Lauro de Freitas e Vilas do Atlântico. Mas se Márcio me interessar e a recíproca for a mesma, ah doutor, eu mudo os meus planos.

Eu ando com a cabeça cheia, doutor. Muito cheia mesmo. A mil. O senhor está percebendo, né? Meus nervos estão à flor da pele. Doutor, eu não durmo mais. Eu vou surtar, ter um troço. Doutor, eu preciso me encontrar, saber quem eu sou, porque eu não sei. Não me conheço. Olho-me através do espelho e é como se estivesse vendo uma estranha em minha frente. Não tenho identidade. Não tenho ninguém. Estou completamente só. Sozinha, doutor. Eu estou desesperada, completamente perdida. Pelo amor de Deus, doutor, me ajude.
Postado por Renata

2 comentários:

Dani disse...

Putz!!!
Pobre doutor!
Realmente ter tanta expectativa..hahaha
deve enlouquecer qualquer um!
hshahaha
beijos

Faxina

Érika disse...

E põe pobre nisso... só esse doutor pra aguentar as loucuras da Renata! rs
Larga de ser afobada, garota!! rs

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